Com o vigor de quem vem consolidando uma carreira pautada pela coerência e pelo aprimoramento musical, mas com o frescor de quem se preocupa em sempre apresentar algo novo, Eliana Printes chega ao seu sétimo trabalho fonográfico. Trata-se do cd Cinema Guarany. O título é uma alusão e homenagem ao extinto cinema de sua cidade natal, Manaus. Espaço de reminiscências, saudades, experiências vividas, memória afetiva. Assim também soa o cd.
Cinema Guarany parece assim: música pra se ver em tela grande a partir de crônicas e sons resgatados de um passado próximo, de um presente cada vez mais vivo e de um futuro cuidadosamente pensado.
De seus trabalhos anteriores, Eliana Printes reafirma no Cinema Guarany sua constante preocupação com a precisão do seu canto. Afinação acertada, voz envolvente, interpretações emocionadas sem, contudo, perder a técnica, talvez sejam as primeiras características que aproximam um novo ouvinte do trabalho de Eliana Printes. A partir daí, se somam o repertório cuidadosamente selecionado, os arranjos pensados com delicadeza para sua voz e o completo entrosamento entre letra e música, canto e instrumentos, som e silêncio.
Característica marcante da cantora Eliana Printes é a capacidade de passear com desenvoltura por temas e timbres diversos. Seu canto se adequa com maestria, tanto nas canções românticas, sejam naquelas de sua autoria em parceria com Adonay Pereira ou em outras, passando pelo pop/rock contemporâneo, que inclui Legião Urbana, Nenhum de Nós, Uns e Outros, Cidade Negra, até as músicas da nova MPB representada por jovens compositores como Kléber Albuquerque, Péri, Mona Gadelha, Sérgio Pererê e Totonho Villeroy.
Em Cinema Guarany, Eliana Printes opta por uma atmosfera mais acústica, um tanto intimista, mas também um tanto abrangente. O repertório inclui temáticas do universo particular da cantora, como as referências à sua terra natal – Amazonas -, mas se abre também para as questões universais.
Em se tratando da sonoridade, o cd, gravado ao vivo em estúdio, traz um clima de show, mesmo sem plateia. A base instrumental é composta por piano, baixo e bateria, o que confere um ar meio bossa nova, meio jazz, meio câmera. Mas os ritmos abrangem samba, baladas, até canções de clara inspiração radiofônica da era do rádio, deixam claro: trata-se de um cd de Música Brasileira no sentido mais autêntico da expressão.
O que dizer das 10 músicas que compõem o cd Cinema Guarany? A impressão primeira é que são músicas-filme. Canções para se ver, filmes para se ouvir. Seis das canções são da safra da própria cantora em parceria com Adonay Pereira, produtor do disco. São as mais românticas. Aquelas trilhas que embalariam casais no escurinho do cinema ou a própria história de amor contada em tantos filmes românticos.
Dentre as baladas românticas, merecem destaque “Anjo de Prata” e “Preciso de você”. Ambas são declarações de amor. Ambas são recheadas de imagens e cenas próprias de um filme. Anjo de prata, estrela do norte, barco de papel, ponte sobre mar de gelo, tapete voador, lua branca, estrela azul são referências pictóricas que acrescem às duas músicas sentidos para além do dizer eu te amo. São, também, as canções mais radiofônicas do cd.
Também composições de Eliana Printes e Adonay Pereira, “Todo mundo sabe” e “Estou bem” soam despretenciosas e alegres. Carregadas de leveza, jovialidade e um tom de ironia, são também sobre o amor, porém com um cunho menos sério, quase informal. A primeira é um excelente samba com discurso bastante atual e a segunda é um pop romântico cujo refrão, além de intrigante, é viciante.
“O próximo beijo” é uma regravação do terceiro cd de Eliana Printes de mesmo título, agora com arranjo mais intimista. Esta música tem uma expressão que daria um excelente título de filme: “briga de amor ao luar”.
Diferente das outras cinco músicas, “A cidade e o luar”, também da dupla Eliana Printes e Adonay Pereira, não tem pegada romântica. Trata-se de uma canção com cara de bossa nova, porém carregada de densidade na letra – o que não é característico da bossa nova. A música já abre o cd apresentando uma variedade de imagens e cenas prontas para virarem filme. Lua, mar, rio, sol, calor, madrugada. Tudo está presente. Tudo remete a uma calmaria de cidade pequena e à lentidão do tempo. Aqui, Eliana Printes já aponta uma necessidade de retorno frequente à sua origem amazonense: “não importa o rumo que eu siga, eu sempre estarei retornando”.
Também referenciando as origens da cantora, o cd resgata um clássico de João Donato e Lysias Enio. Trata-se da jazzística “Amazonas”. Novamente a premência do retorno. Novamente as cenas, as tomadas, os planos cinematográficos: redes, rios, canoas, palhoças. Novamente o rio que leva ao mar. Na mesma onda, a música “Festa”, de Sérgio Souto, consolida um turbilhão de imagens amazônicas numa canção completamente imagética. É só fechar o olho e ver o filme rodando.
Enquanto a música “Não fico mais sem teu carinho”, de Roberto Correia e Sylvio Son remete às matinês com filmes da jovem guarda, “Poema”, de Rubens Lisboa tem uma referência mais parnasiana, quase clássica. Esta última talvez seja a canção mais hermética, mas não menos capaz de atingir multidões com sua facilidade comunicativa e extrema delicadeza.
Que o Cinema Guarany povoe nossas mentes e corações de sons e sonhos de amor, drama, comédia, mas, sobretudo, aqueça nossos ouvidos com boa música.
*Celi Márcio Santos
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